quinta-feira, 2 de julho de 2020

Ato I Cena V - O Pomo da Discórdia

Ato I Cena V - Livro Pequeno Teatro da Ilíada e Odisseia - The Judgement of Paris - Jean-François de Troy (1679-1752)
The Judgement of Paris - Jean-François de Troy (1679-1752)
(Trecho do livro Pequeno Teatro da Ilíada e Odisseia)

O Pomo da Discórdia
Todos os deuses foram convidados para a festa de casamento de Peleu1 e Tétis, exceto Éris, a deusa da discórdia, a pedido do próprio Zeus. Como vingança, ela aparece e oferece uma maçã de ouro, com os dizeres “para a mais bela deusa”, causando terrível desavença entre Hera, Afrodite e Atena e estragando a festa, para a qual não fora convidada.

ZEUS
Parem, parem! (tapando os ouvidos) Já chega! Eu não aguento mais essas três brigando. Hermes, pegue esse Pomo da discórdia e leve as três para o alto do monte Ida. Que o filho de Príamo cumpra o seu destino e decida, de uma vez por todas, quem fica com o Pomo. Vá! (Hermes pega o Pomo da discórdia e as três seguem com ele até o Monte Ida, onde encontram Paris, sentado em uma pedra).

HERMES
Não fuja, escute Paris! (assustado com a súbita aparição) Os deuses ordenam que você entregue este Pomo para aquela que for a mais bela das deusas: Hera, Afrodite ou Atena.

PARIS
Mas eu sou um humilde pastor, não posso escolher! Não dá para cortar a maçã em três partes e entregar um pedaço a cada? São deusas, belas como nenhuma outra mulher...

HERMES
Deves escolher apenas uma, é o pedido de Zeus. (As deusas avançam, apresentando-se).

HERA
Olha-me com muita atenção (sorrindo e girando graciosamente), decida por mim e farei de você o homem mais rico do mundo.

PARIS
Obrigado, mas não posso ser comprado (Hera sai irritada e entra Atena, com seu elmo reluzente).

ATENA
És belo e inteligente, se me escolher eu farei com que seja também o mais corajoso e notável de todos os guerreiros!

PARIS
Não sou guerreiro, sou um pastor. Além do mais, temos paz aqui, no reino de Príamo. Se for a escolhida, eu lhe direi. (Antes mesmo que Atena se retirasse vem Afrodite, repleta de charme).

AFRODITE
Tu és belo e seu futuro é tão belo quanto. Eu posso te oferecer uma rainha para ser sua esposa, uma mulher tão bela como uma deusa. Quando ela te conhecer, cairá de encantos e deixará tudo para ficar contigo.

PARIS
Conte-me mais sobre ela...

AFRODITE
Seu nome é Helena, a criatura mais bela que já existiu no mundo, desejada por todos os príncipes da Hélade2 e motivo de guerra entre Atenas e Esparta, cujo rei, Menelau, a tomou por esposa.

PARIS
Meu coração já a deseja, não consigo recusar... Eu escolho a ti, Afrodite, como a deusa mais bela e a dona do Pomo! (Entrega o Pomo enquanto Atena e Hera, loucas de raiva, juram por vingança e que uma terrível desgraça cairia sobre Troia).

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1-  Peleu, rei da Ftia (região da Tessália), futuro pai de Aquiles.
2- Hélade é sinônimo para Grécia. Os povos históricos que migraram para essa parte da Tessália chamavam a região de Hellás, e a si mesmo de Helenos. O termo moderno Grécia e Gregos tem origem posterior, do latim.

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O novo livro da BKCC adapta Ilíada e Odisseia para o formato de teatro,  são 38 cenas curtas mas que contam a história inteira, ideal para o ensino fundamental. Uma peça de teatro para que adolescentes possam interpretar essa história, viver parte da nossa pujante herança cultural.





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quarta-feira, 1 de julho de 2020

Ato I Cena IV - O Que Não Deveria Ter Nascido

Ato I Cena IV - Livro Pequeno Teatro da Ilíada e Odisseia - Paris and Hacabe - Vincent Camuccini (1771-1844)
Paris and Hacabe - Vincent Camuccini (1771-1844)

(Trecho do livro Pequeno Teatro da Ilíada e Odisseia)

O Que Não Deveria Ter Nascido
Príamo, neto de Ilos, reinou em Troia durante muitos anos. Seu primeiro filho com a rainha Hécabe foi Heitor, que seria conhecido como o maior de todos os troianos. Seu segundo filho foi Paris, aquele “que não deveria ter nascido”.

HÉCABE
Acorde, meu marido! Anda, acorde! Tive um pesadelo horrível… sonhei que toda Ílion ardia em chamas... e tudo por culpa deste bebê, que carrego em meu ventre! Foi horrível… (continua a chorar)

PRÍAMO
Calma, meu amor, acalme-se! Essa premonição é muito séria, eu vou consultar o oráculo (Levanta-se e vai falar com o oráculo). Diga-me Oráculo, você que tudo vê e que tudo sabe, que destino espera essa criança no ventre de Hécabe? Há algo que eu precise me preocupar?

ORÁCULO
A criança que está para nascer será muito bela e uma saúde digna da linhagem real…

PRÍAMO
Que bom (aliviado). Muito me agrada saber que será uma criança saudável… mas, diga-me, o povo de Troia, correrá algum perigo?

ORÁCULO
A vida dessa criança... será a morte de Troia... se quiser salvar a cidade, deve sacrificar a criança.

PRÍAMO
Por Zeus! (desconsolado) Que assim seja. O bebê não deverá viver, ele será sacrificado. (Voltando-se para a rainha) Quando o bebê nascer eu vou pedir ao pastor Agelau para levá-lo.

HÉCABE
Nãooo… (cai ajoelhada, colocando as mãos sobre o seu ventre, em desespero)

(Assim que o bebê nasce é entregue a Agelau, com ordens para sacrificá-lo. Agelau e sua esposa contrariam a determinação e passam a cuidar da criança1 que cresce como um pastor, de grande beleza física e inteligência, dignas da linhagem real).

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1- Agelau e sua esposa cuidaram daquele bebê como se fosse o seu próprio, colocando-o em um cesto. Todos os cuidados voltavam-se para aquele “cesto”, de modo que o menino passou a se chamar Paris, que significava “cesto” naquele tempo.



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segunda-feira, 29 de junho de 2020

Ato I Cena III - A Fundação de Troia

(Paládio nas mãos da deusa Atena)

A Fundação de Troia
Admirado pelo desempenho de Ilos nas competições atléticas da Frígia, o rei presenteou-o com 50 homens, 50 mulheres e uma vaca. Disse-lhe para que soltasse a vaca e a seguisse, até o local onde essa tombasse. Nesse lugar, ele deveria fundar a sua própria cidade.

ILOS
Por Zeus, o que faço? Obedeço ao rei da Frigia ou ignoro as suas ordens? A vaca foi cair justamente na Colina de Ate…

NICOLAU
Não podemos levantar a cidade neste lugar Ilos, conhece muito bem a profecia, ela é bem clara: “Os homens que habitarem dentro das muralhas da cidade erguida na colina de Ate sofrerão grandes calamidades”.

ILOS
Eu conheço a profecia Nicolau, o oráculo é bastante claro, mas a deusa Atena não permitiria que o animal caísse aqui sem ter um motivo para isso. Deve haver uma razão...

NICOLAU
Será que nós entendemos corretamente o sentido da profecia? Será possível que isso seja um teste, um tipo de prova? (Ilos abaixa a cabeça e recapitula pausadamente o oráculo).

ILOS
Os homens que habitarem dentro das muralhas da cidade...”, “dentro das muralhas da cidade...” é isso Nicolau! Se não há muralhas, ninguém habitará dentro das muralhas! Vamos erguer uma cidade sem muralhas! E que Atena proteja a nossa cidade! Vamos, comecemos a cavar… (Nicolau enfia sua pá na terra e encontra um Paládio, uma pequena estatueta de madeira representando Palas, a companheira da deusa Atena).

NICOLAU
Ilos! Veja aqui o que eu encontrei enterrado no chão, um pequeno paládio! Isso só pode significar uma coisa, é o sinal de que a deusa Atenas abençoa a nossa decisão! Estamos corretos!

ILOS
Sim meu caro Nicolau! Essa é a prova de que estamos certos e de que essa cidade esta sob a proteção da deusa. Mesmo assim, eu vou consultar o oráculo sobre esse achado (Ilos vai até um oráculo, que acompanha a comitiva).

ILOS
Diga-me caro Oráculo, que tudo vê e que tudo sabe, será esse Paládio uma prova da benevolência da deusa Atena com a nossa decisão de aqui erguer a minha cidade?

ORÁCULO
Mantenha o Paládio dentro da cidade e ela estará protegida.

ILOS
É com grande satisfação que ouço essas palavras, muito obrigado Oráculo, eu…

ORÁCULO
Espere… (apontando o indicador para Ilos) Se algum dia o Paládio sumir ou for roubado e sair da cidade, com ele, desaparecerá a cidade inteira.

ILOS
Que assim seja, caro oráculo. (Levanta-se e avisa Nicolau das boas novas) Atena será a nossa protetora e nesta colina será erguida a cidade de Troia1!


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1- Em homenagem a seu pai, Trós. Chamada por outros de Ílion, o nome de seu fundador.



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domingo, 28 de junho de 2020

Ato I Cena II - Héracles de Tebas


Ato I Cena II - Héracles de Tebas - Livro Pequeno Teatro da Ilíada e Odisseia - Teatro completo para o ensino fundamental


Héracles de Tebas
Alcmena sofre de maneira horrível e prolongada com as dores do parto, que avança pelo décimo mês. Sua amiga Galintia, procura desesperadamente uma maneira de ajudá-la enquanto põe outro pano molhado sobre a sua testa.

GALINTIA
Ninguém merece tamanha penitência minha amiga, não aguento mais ver-te sofrendo assim, eu preciso fazer algo (trocando os panos em sua testa).

ALCMENA
Vai amiga, diz àquelas feiticeiras sentadas à porta que o bebê finalmente nasceu, quem sabe assim elas vão embora (Galintia faz um corte em sua mão com a tesoura e tinge de sangue o pano da compressa).

GALINTIA
Nasceu, nasceu! É um menino, é um menino! (Corre em direção às Moiras, sentadas de braços e pernas cruzadas à porta da casa e exibe o pano avermelhado como prova do acontecido). Zeus está aqui e veio conhecer o filho que finalmente nasceu! Venham, venham, entrem e comemorem conosco!

FIANDEIRA
Isso é impossível!

MEDIANEIRA
Zeus está aqui? Vamos embora irmãs, antes que ele nos veja!

INFLEXÍVEL
Rápido, rápido! (Boquiabertas e assustadas pela intervenção divina as três Moiras voam, espantadas pelo aparente fracasso. O filho de Zeus com a mortal Alcmena pode finalmente ver a luz do dia).

ALCMENA
Galintia… corre Galintia! Deu certo, o bebê está nascendo, ajude-me!

GALINTIA
Veja Alcmena, que menino enorme!

ALCMENA
Seu nome será Héracles10 (observando o sucesso do seu plano, Hera vai até Zeus e, com um sorriso malicioso, lhe conta da frustração dos seus planos).

HERA
Seu filho bastardo não será o rei, nunca será! Antes, obedecerá a Euristeu, o pequeno filho de Estênelo, que nasceu primeiro(Zeus emudece de ódio e percebendo que foi distraído por Ate, agarra sua filha pelos cabelos e a atira do alto do monte Olimpo para a terra, amaldiçoando para sempre a colina onde a deusa caiu).

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10- Mais conhecido por seu nome romano: Hércules.


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sábado, 27 de junho de 2020

Ato I Cena I - Monte Olimpo


Livro: Pequeno Teatro da Ilíada e Odisseia
Ato I Cena I - Monte Olimpo - Livro Pequeno Teatro da Ilíada e Odisseia - Teatro completo para o ensino fundamental


Monte Olimpo
Zeus levanta-se de seu trono e com voz estrondosa, pede a atenção de todos os presentes no grande salão de paredes brilhantes, no ponto mais alto do Monte Olimpo. Os deuses estão reunidos, comendo e bebendo em um grande banquete festivo.

ZEUS
Atenção todos! Eu tenho um grande anúncio a fazer (os deuses se calam e um grande silêncio exalta a autoridade do maior de todos) Quero fazer um brinde à primeira criança da linhagem de Perseu que vai nascer esta noite... o seu destino é o de ser o maior herói grego jamais visto, e terá o meu sangue! Ele fará real o sonho de unir os gregos1 em um único e grande reino! (Hera enrubesce de raiva com mais uma traição do seu marido)

HERA
Nunca! (virando-se para a deusa Ate) Jamais permitirei tal afronta! Ate, preciso da sua ajuda (e sussurra algo no ouvido de Ate, que levanta-se e vai até Zeus, distraindo-o).

ATE
Que maravilha meu pai! (brinda com Zeus) Estou muito feliz! (abraça-o e depois permanece atrás dele, enfeitiçando-o com as mãos e amortecendo seus sentidos enquanto Hera se aproxima)

HERA
Meu marido! O que diz é um sonho para os gregos, você jura, pelas águas sagradas do rio Estige2, que essa primeira criança perseida3 que nascerá essa noite será o futuro rei dos reis?

ZEUS
Eu sou Zeus! Eu não minto! (desafiando Hera) Pelas águas que correm no Estige eu reafirmo: a primeira criança descendente de Perseu que nascer essa noite, será o líder de todos os gregos!

HERA
Que assim seja, meu marido. (Hera, satisfeita com a promessa, retira-se do banquete e inicia uma oração) Eu invoco as Moiras4, filhas da noite, que regem a vida dos deuses e dos homens… apareçam, apareçam! (entram as três Moiras: Fiandeira, Acaso e Inflexível, voando e dançando ao redor da deusa)

MOIRAS
Tecendo a teia
cirzam irmãs!
A vida, arreia,
a qual xamãs!
Da morte, apeia,
sagaz titãs!
Falais atento
o teu lamento 5

HERA
Moiras, eu as invoco! Vão depressa para Tebas e lá encontrem a jovem Alcmena, retardem ao máximo o nascimento do filho bastardo de Zeus.

MOIRAS
Zeus! Zeus! Zeus! (gritam)

HERAS
Sentem-se à porta da jovem Alcmena, cruzem seus braços e suas pernas e impeçam essa criança de ver a luz do dia...

MOIRAS
Dia! Dia! Dia! (gritam)

HERA
...mas antes, façam com que o filho6 de Estênelo e Nicipe nasça prematuro e cumpra a profecia de meu marido… essa criança, e não o filho de Alcmena, será o futuro rei dos perseidas...

MOIRAS
Vamos, Moiras, vamos lá!
Sorte gira, linha corta,
toda vida vai fiando.

Vamos, vamos, lá voando!
Deus ou humano, pé na porta,
vida ou morte digo já. 7

HERA
Idem! Idem! (as Moiras saem voadas, cantarolando a sorte dos homens)

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1- Apesar de guerrearem umas contra as outras, as cidades-estado gregas falavam a mesma língua, reverenciavam os mesmos deuses e partilhavam da mesma cultura. O nascimento de Héracles (ou Hércules) personifica o antigo desejo ancestral da unificação de todos os gregos em um só Estado.

2- Nome de uma ninfa que ajudou Zeus na guerra dos Titãs ou Titanomaquia e foi recompensada com uma fonte de águas mágicas, um longo rio que desaguaria no submundo. Diz a lenda que nem mesmo os deuses podem quebrar uma promessa feita pelo Estige.

3- Filho de Perseu.

4- As três irmãs fiandeiras são representantes das forças elementares do mundo que regulavam a duração da vida desde o nascimento até a morte. Trabalham em seu tear, cuja roda representa a fortuna onde os fios dos mortais tem os seus altos (sorte) e baixos (azar); Cloto (Fiandeira) fiava o fio do destino, Láquesis (Acaso) enrolava o fio e Átropos (Inflexível) cortava-o, quando esta chegava ao seu fim.

5- Poema de oitava-rima ou oitava heroica (estrofe de oito versos), com esquema rítmico (ABABABCC) denominado Jambo ou Iambo (formado por uma sílaba curta átona e uma sílaba longa tônica, ex.: portão); “Súplica às Moiras”, do autor.

6- O pequeno e frágil Euristeu, filho de Estênelo, rei de Micenas e descendente de Perseu, nasce prematuro de sete meses e herda o trono no lugar do filho de Zeus, Héracles.

7- Poema de dois tercetos (estrofes de três versos), com esquema rítmico (ABC CBA) denominado Troqueu ou Coreu (formado por uma sílaba longa tônica e uma breve átona, ex,: porta); “Empresa das Moiras”, do autor.


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