domingo, 18 de agosto de 2019

ATO XIII - Futuro, da Internet e Além

As pessoas desafiaram o poder do Estado. A liberdade do indivíduo não é o destino, mas o próprio caminho - Duplipensar - Crime de pensamento - Livro



As pessoas desafiaram o poder do Estado. A liberdade do indivíduo não é o destino, mas o próprio caminho. A “eterna vigilância” que nos garante a eterna liberdade foi sendo aperfeiçoada e chegamos à sua quase perfeição. A Internet flerta com uma desavergonhada comunhão público-privada – suas maiores redes sociais utilizam filtros de conteúdo e censura visando ao “bem-estar” e à “proteção” do público. A rede submete artistas, intelectuais e populares ao autopoliciamento, à autocensura, quase que ao “crime de pensamento”, tentando eliminar todas as opiniões com “potencial conflitivo”.  A tecnologia que libertou o indivíduo do poder do Estado é cada vez mais uma extensão do seu próprio corpo. Ela entorpece seus sentidos e suborna-o de uma maneira muito mais owerlliana, em uma espécie de nova espiral de silêncio e escravidão.
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Descrição da cena: Nicholas pede ajuda a Erik para encontrar o livro de um autor banido das redes sociais e ignorado pelas grandes lojas, mas divergem quanto ao melhor modo de ler a obra.

ERIK       
 Encontrei! Não tem na Amazon, mas tem neste site australiano. Olha. (mostrando)
NICHOLAS    
O livro dele custa só 3 dólares? Com envio e tudo? Esse livro está esgotado faz anos! Virou raridade depois que o autor foi banido das redes sociais.
ERIK               
Não, o e-book! Para que você vai querer um livro físico?
NICHOLAS    
Eu tenho a sensação de que assimilo melhor quando leio a versão impressa. O fato de eu segurar, sentir o cheiro, lembrar das marcações... tudo ajuda.
ERIK               
Passado, cara! Para que levar um trambolho desses para cima e para baixo quando num e-reader[2] você tem todos os livros do mundo! Olha, na Amazon tem uma lista de leituras recomendadas sobre o assunto.
NICHOLAS   
 Não curto ler a versão digital. É muito impessoal, é frio. E essa lista que passaram não tem nada a ver com ele. É o oposto, inclusive.
ERIK               
Mas você vai ter a mesma informação do livro físico. E de um modo bem mais fácil.
NICHOLAS    
O modo como eu leio modifica totalmente a minha maneira de pensar. Para que que eu ia me esforçar em interpretar uma sentença se no digital eu clico e tenho a explicação?
ERIK               
Ah, eu adoro! Quando me interesso por um personagem, eu já clico no nome, vejo quem é o ator, a sinopse do livro, entrevistas, tudo! Não perco nada!
NICHOLAS    
Continue lendo assim e tudo para você será superficial e passageiro. Daqui a pouco, não vai conseguir ler nada que for mais denso ou exigir maior concentração.
ERIK               
Eu sou prático! Quero entender algo? Digito no Google e pronto. Estou com fome? Falo “pizza” perto do celular e pronto, vem uma promoção da pizza de que eu mais gosto.
NICHOLAS    
(imitando Erik) Paro de usar o meu cérebro e pronto!, virou uma ameba, cada vez mais preguiçosa.
ERIK               
Eu quero é cada vez ter que decidir menos. Ter as coisas mais rápidas, na mão, sem planejar ou ter trabalho. Quero é tempo livre, mais liberdade!
NICHOLAS    
Quando os outros decidem por você, a liberdade vira escravidão[3]. Se você não sabe nem decifrar o que quer, como é que vai tirar de um livro algo útil para a sua vida?


[1] ORWELL, George, “Crime de pensamento não acarreta morte: crime de pensamento é morte”, Livro 1984, publicado em 1949. Nessa ficção, o governo tenta controlar não apenas as falas e ações, mas também os pensamentos de seus cidadãos, rotulando-os pelo termo crime de pensamento.
[2] Aparelho utilizado para leitura de livros digitais.
[3] Fazendo menção ao lema do grande partido: “Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força”. Em ORWELL, George, 1984.

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O projeto adapta Ilíada e Odisseia para o formato de teatro,  são 38 cenas curtas mas que contam a história inteira, ideal para o ensino fundamental. Uma peça de teatro para que adolescentes possam interpretar essa história, viver parte da nossa pujante herança cultural.





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